Cerveja Trapista: o fascínio das cervejas quase celestiais – Parte 1

Que álcool e religião são coisas que não guardam nenhuma relação, a não ser a do afastamento natural, não é novidade para ninguém. Mas, para os amantes de uma boa cerveja, esse casamento aparentemente impossível, aconteceu e gerou frutos maravilhosos que respondem pelo nome de Cerveja Trapista, ou, com o perdão do trocadilho, Cervejas Benditas!

Em grande parte graças a Ordo Cisterciensium Strictioris Observantiæ (OCSO) ou Ordem dos Cistercienses Reformados de Estrita Observância, congregação religiosa católica responsável pela Ordem Trapista, cujo nome é uma homenagem ao mosteiro de Nôtre-Dame de La Trappe (que inclusive dá nome a uma das Cervejarias Trapistas!).

Nada a ver, portanto, com a ideia que o nome estaria ligado ao fato de tais monges usarem trajes despojados ou “trapos”.

Além da questão religiosa, o que torna essa ordem muito conhecida são os produtos de alta qualidade que eles fabricam.

Cervejas, licores, pães, doces, queijos, vinhos e mel entre outros, além de serem consumidos pelos próprios monges, são comercializados, ajudando assim na manutenção do mosteiro e das obras de caridade por eles mantidas.

Ao contrário dos monges de vida solitária, os trapistas são monges beneditinos que vivem em comunidade. Fazem votos de pobreza, castidade, obediência e estabilidade, mas ao contrário dos membros de outras ordens católicas, não são proibidos de consumir bebidas alcoólicas.

Daí o fato de alguns mosteiros – para o bem de todos nós admiradores, produzirem suas próprias cervejas, adoradas e idolatradas por vários mortais pecadores!

Mesmo representando algumas das cervejas mais aclamadas do mundo, Trapista não é considerado um estilo e sim uma certificação.

De acordo com o Beer Judge Certification Program (BJCP), que busca Incentivar o conhecimento, compreensão e apreciação dos diversos estilos de cerveja, hidromel e cidra do mundo, a maioria das Cervejas Trapistas é do tipo Belgian Style. Estão incluídas neste grupo a Ale Especialidade Belga, Blond Ale Belga, Dubbel Belga, Tripel Belga e Ale Forte Escura Belga.

A fim de distinguir seus produtos, as Cervejarias Trapistas utilizam alguns métodos curiosos, tais como:

  • Os rótulos coloridos (amarelo, azul e rubro) da Chimay;
  • As letras góticas estilizadas (B, D, W, T, Q) da La Trappe
  • As tampinhas coloridas (verde, azul e amarela) da reverenciada e espetacular Westvleteren;
  • Os números nos rótulos (6, 8 e 10) da interessante Rochefort.

Há ainda as cervejas do tipo Abadia, que são inspiradas naquelas feitas pelos monges trapistas mas não necessariamente produzidas por eles, como por exemplo, a belga Leffe e a brasileira Bohemia Confraria, fabricadas pela gigante AB Inbev.

Assim, podemos afirmar que toda Cerveja Trapista é do tipo Abadia, mas nem toda Cerveja do tipo Abadia é Trapista!

Um pouquinho de história!

A produção de cervejas nos mosteiros não é algo recente. Desde a idade antiga, os monges possuíam conhecimento, métodos, recursos e paciência para fabricar uma breja de respeito.

E várias ordens e congregações religiosas possuíam esse expertise, entre elas, a Ordem Cisterciense ou de Císter.

Como ordem religiosa católica, os Cistercienses têm sua origem ligada a fundação da Abadia de Císter, na região da Borgonha em 1098, com o objetivo de seguir a antiga Regra Beneditina.

Ao longo dos séculos, a ordem exerceu grande influência religiosa, intelectual e econômica. Atualmente, divide-se em Ordem de Comum Observância e de Estrita Observância, também conhecida como Ordem Trapista, devido a Abadia de La Trape na França.

A Ordem Trapista possui mosteiros nos cinco continentes, inclusive no Brasil.

Com produção limitada e indiscutível qualidade, não demorou para que as cervejas que seguiam o “estilo Trapista” fossem copiadas.

A partir de meados do século 20 passaram a ser fabricadas em vários locais, muitos deles fora dos limites dos mosteiros. Até aí nada demais. O problema é que algumas marcas passaram a usar o termo “Trapista” nos rótulos.

Por se tratar de uma marca conhecida e associada a produtos de qualidade, a prática se espalhou para outros produtos que os monges faziam, tais como, queijo, mel, cosméticos etc.

Para inibir essa prática e regular o uso do termo, em 1997, oito mosteiros trapistas (seis da Bélgica, um da Alemanha e um da Holanda) se reuniram e fundaram a International Trappist Association ou  Associação Trapista Internacional (ITA).

Atualmente, 20 mosteiros ou abadias fazem parte da associação, sendo onze na Bélgica, três na Holanda, um nos Estados Unidos, um na Espanha, um na Alemanha, um na Itália, um na França e um na Áustria.

Mosteiros Trapistas e produtos por eles fabricados Fonte: Página da ITA (http://www.trappist.be)

Mosteiros Trapistas e produtos por eles fabricados. Fonte: Página da ITA (http://www.trappist.be)

Mas somente doze produzem as preciosidades líquidas fermentadas!

São eles os belgas Achel, Chimay, Orval, Rochefort, Westmalle e Westvleteren; os holandeses La Trappe e Zundert; o francês Mont des Cats; o austríaco  Stift Engelszell; o italiano Tre Fontane e o norte-americano Spencer.

Mosteiros Trapistas que fabricam cerveja Fonte: Página da ITA (http://www.trappist.be)

Mosteiros Trapistas que fabricam cerveja. Fonte: Página da ITA (http://www.trappist.be)

A ITA passou então a ter um selo para certificar os diversos produtos fabricados e comercializados nos mosteiros associados, sempre respeitando regras e padrões criteriorosos.
   

Rótulo Trapista Rótulo trapista

Para fabricação de cerveja, a ITA exige que:

Ela deve ser fabricada dentro dos muros de um mosteiro trapista, ou, sob controle de monges trapistas;

A comunidade monástica deve determinar os meios de produção, os tipos a serem fabricados e a orientação comercial a ser seguida;

O objetivo econômico deve ser atender as obras sociais do mosteiro…

As características dos diferentes tipos

A Cerveja Trapista é de alta fermentação (Ale) e possui aroma, sabor e aparência bastante variável. Pode ter teor alcoólico elevado (como os 11,3% da Rochefort 10), e, além da cevada, incluir características de outros cereais, como o trigo ou centeio.

O sabor e o aroma apresenta frutas, temperos, especiarias e levedura, bem como, o sabor proveniente de adjuntos como xarope de açúcar caramelizado ou mel.

A coloração pode ser de dourada a muito escura e de turva a límpida.

A seguir são apresentadas as características dos principais tipos de Cerveja Trapista:

  • Single – Também conhecida como “Cerveja dos Monges” ou “Cerveja dos Irmãos” por possuir baixo teor alcoólico (4,8 a 6,0%) e ter seu consumo geralmente restrito aos limites do mosteiro. Entre as marcas disponíveis destacam-se a Achel 5° Blond, a Westmalle Extra e a Westvleteren Blond;
  • Dubbel – Com teor alcoólico variando de 6,0 a 7,6%, possui cor avermelhada e aroma complexo. Começou a ser fabricada nos mosteiros, na Idade Média, e após uma interrupção, teve sua produção retomada em meados de 1800, após a era Napoleônica.  Fazem parte desse estilo a Chimay Première, La Trappe Dubbel, Trappistes Rochefort 6 e Westmalle Dubbel;
  • Tripel – Cerveja forte, um pouco picante, com aroma complexo e alto teor alcoólico (7,5 a 9,5%). Popularizada pelo Mosteiro de Westmalle, tem entre suas marcas comerciais a Chimay Cinq Cents, La Trappe Tripel, Val-Dieu Triple e Westmalle Tripel;
  • Belgian Dark Strong Ale – Também conhecida como Quadruple (ou Quadrupel), é escura, complexa e possui elevado teor alcoólico (9,0 a 12,0%). As diferentes marcas possuem caráter próprio que refletem características das cervejarias onde são produzidas. Entre as marcas de destaque estão a Achel Extra Brune, Chimay Grande Réserve, Rochefort 8, Rochefort 10 e  Westvleteren 12.

Em relação às cervejas do tipo Single, Dubbel e Tripel, existem muitas teorias sobre a origem dos seus nomes. Algumas delas interessantes, outras criativas. Deixando de lado o rigor histórico, vamos a algumas (o Beer & Bier faz um relato interessante de algumas delas)

  • Os nomes designariam a quantidade de malte usado na fabricação: 2X na Dubbel e 3X na Tripel;
  • Seguindo um costume da Bélgica de antigamente, as cervejarias usariam os termos associados ao teor alcoólico aproximado:Single, para 3,0%, Dubbel para 6,0% e Tripel para 9,0%, ou ainda, Enkel (básica), Dubbel (média) e Tripel (forte), neste caso, não necessariamente guardando relação de o dobro e o triplo de álcool;
  • Número de fermentações a que cada cerveja seria submetida, no interior ou fora da garrafa;
  • Os termos designariam o segundo (Dubbel) e o terceiro (Tripel) tipo de cerveja feita em cada mosteiro. Isso poderia explicar por que essas cervejas têm características distintas de uma cervejaria para outra;
  • Essas cervejas seriam feitas num único processo de fabricação e de acordo com o teor de açúcar e a ordem de produção, tinha-se a Tripel, mais forte, que era servida aos visitantes do mosteiro; a Dubbel, de teor alcoólico médio, que era servida em dias festivos no mosteiro; e a Single, a última a ser produzida, mais fraca e, portanto, consumida pelos monges no dia-a-dia.

Agora que falamos um pouco sobre essas jóias abençoadas da cervejaria mundial, que tal prová-las, seja para conhecê-las, para se surpreender com o sabor marcante, para perceber as diferenças existentes entre as marcas, ou simplesmente, para degustá-las com calma?

Afinal de contas estamos falando de cervejas com séculos de tradição!!!

Animou-se?

Para nossa felicidade, com algumas excessões (como no caso da endeusada Westvleteren), é possível encontrá-las em boas importadoras e até nas gôndolas de supermercados.

Tempos atrás, sem muita dificuldade e gastando o equivalente ao que pagaria por algumas garrafas medíocres que bebemos em lugares da moda, consegui reunir essas “belezinhas” abaixo para uma despretensiosa degustação:

Rórulos de cerveja trapista

Saúde!!!

PS: No próximo post, falaremos um pouco mais de cada uma das Cervejarias Trapistas e suas marcas!

Sobre o autor

Engenheiro que virou professor. Antes de descobrir o Maranhão, foi mineiro, baiano, sergipano e paulista. Cozinheiro de fim de semana, adora viajar, comer e beber, não necessariamente nesta ordem. De buxada a foie gras, de cuxá a caviar adota a máxima: se tem cara boa, coma!

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