Cerveja Trapista – Parte 2: Achel, Chimay e La Trappe

Desculpando-me com os leitores, que se interessam pelas estórias e histórias que contamos aqui neste espaço, após o longo hiato desde a última postagem – a quem credito às questões profissionais, retomo a saga dessa cerveja maravilhosa- a trapista, agora para falar das cervejarias e marcas comercializadas.

Se relembrarem o nosso último post, existem atualmente, 12 Cervejarias Trapistas: as belgas Achel, Chimay, Orval, Rochefort, Westmalle e Westvleteren; as holandesas La Trappe e Zundert; a francesa Mont des Cats; a austríaca  Stift Engelszell; a italiana Tre Fontane e a norte-americana Spencer.

Nas linhas seguintes, vamos ver os bons serviços que cada uma delas presta a todos nós, amantes de uma boa breja. Para facilitar a consulta, resolvi classificá-las em ordem alfabética. Então, mãos à obra (ou, melhor dizendo, mãos à taça!).

1 – ACHEL

Trapista Achel

A história da Cervejaria Achel (pronuncia-se como se lê, evidenciando o “l”“) ou Brouwerij der Sint-Benedictusabdij de Achelse Kluis tem início em 1648, quando monges holandeses construíram uma capela na cidade de Achel, que posteriormente se transformou em uma abadia, que acabou destruída durante a Revolução Francesa.

O tempo passou e em 1844, os monges resolveram reconstruir as ruínas com ajuda da conhecida “abadia cervejeira”: Westmalle. Veremos adiante, que esta não foi a única vez que o mosteiro de Achel teve que ser reconstruído.

Associada a várias atividades agrícolas, a produção regular de cerveja iniciou em 1871, e tudo ia bem, até que estourou a I Guerra Mundial, e em 1914, os monges abandonaram o local devido a ocupação alemã.

Um fato curioso, que aparentemente está mais para “história” do que “estória”, é que, como o mosteiro está exatamente sobre a divisa da Bélgica e da Holanda, as tropas alemãs ocuparam apenas a parte belga do mesmo, poupando a parte holandesa, já que o país tinha se mantido neutro no conflito.

Linha que divide a Bélgica e a Holanda no Mosteiro de Achel

Linha que divide a Bélgica e a Holanda no Mosteiro de Achel

Linha que divide a Bélgica e a Holanda no Mosteiro de Achel

De toda forma, o estrago foi grande. A cervejaria foi toda desmontada, e os equipamentos – àquela época feitos de cobre, deixaram de produzir cerveja para se transformarem em armas.

Demorou um bom tempo até que os monges resolvessem fazer cerveja novamente.

Só em 1998, com recursos oriundos da venda de parte das terras do mosteiro e com o auxílio das “irmãs” Westmalle e Rochefort, uma nova fábrica foi construída.

No início, com produção modesta, as cervejas eram vendidas em uma espécie de taberna nos arredores da fábrica, o que levava os monges a fazerem troça com a situação, ao afirmar que eram o “único brewpub Trapista do mundo”.

Em 2001, foram lançadas a Achel Brune 80 e a Achel Blond 80 – suas cervejas mais conhecidas.

Todas as cervejas são envelhecidos por um mês antes de serem comercializadas.

Atualmente a Achel produz as seguintes cervejas:

  • Achel Blond 50 e Achel Brune 50 – Possuem cerca de 5% em volume de álcool. São vendidas somente na taberna da cervejaria, onde chegam diretamente a partir dos barris. Não são filtradas e possuem médio amargor (26-27 IBUs). A Brown sofre adição de malte torrado, que lhe empresta um sabor característico;
  • Achel Blond 80 e Achel Brune 80Com 8% em volume de álcool, representam as duas marcas mais famosas da Achel. Enquanto a blond é uma Belgian Strong Ale de aroma muito frutado, a Brune recebe adição de malte torrado e açúcar mascavo, o que lhe confere um paladar agridoce e aroma pronunciado;
  • Achel Extra Blond 9,50 e Achel Extra Brune 9,50 Vendidas em embalagens maiores (750 ml), são mais alcoólicas (9,5%) e complexas que as irmãs. Uma maior adição de lúpulo faz com que também tenham um amargor maior (29 IBUs).

Tipos Achel


2 – CHIMAY

O nome Chimay (pronuncia-se chimé) é devido a cidade belga homônima, onde monges trapistas da abadia de Notre Dame de Scourmont começaram a produzir cerveja em 1852,  com o objetivo de estimular o emprego na região.

Primeira cervejaria a usar a designação “Trappist Ale” em seus rótulos, a Chimay, que também produz queijos afamados, é atualmente a maior cervejaria Trapista do mundo, com produtos presentes em mais de 50 países, inclusive no Brasil onde sua oferta tem se tornado mais frequente (aqui em São Luis, por exemplo, encontro com frequência no supermercado que frequento).

Como já relatado no post anterior, a Chimay utiliza rótulos e tampinhas de diferentes cores (especialmente branco, azul e vermelho) para designar seus produtos. Segundo a cervejaria, uma das razões seria “enfatizar as raízes belgas e a identidade Trapista do produto”. Atualmente a Chimay produz:

  • Chimay Gold – Contém 4,8% de álcool, devendo ser consumida entre 6 e 8 0C. Era inicialmente reservada aos monges (daí o baixo teor alcoólico), mas atualmente é comercializada em garrafas de 330 ml;
  • Chimay Red Cap – Contendo 7,0% de álcool e devendo ser consumida entre 10 e 12 0C, essa Dubbel é a mais antiga das cervejas Chimay. De cor entre o cobre e o marrom, possui sabor frutado. Está disponível em garrafas de 330 ml e 750 ml (conhecida como “Première“);
  • Chimay Triple – Com 8,0% de álcool e temperatura de serviço entre 6 e 8 0C, esta cerveja possui cor dourada e doçura e amargor em equilíbrio. Está disponível em garrafas de 330 ml e 750 ml (conhecida como “Cinq Cents”);
  • Chimay Blue – Possui 9,0% de álcool e deve ser servida à temperatura de 10 a 12 0C. De cor escura e aroma e sabor intenso, essa triple, além das embalagens tradicionais de 330 ml e 750 ml  (chamada de ‘Grande Réserve”), está disponível em embalagens maiores: 1,5 l ( Magnum), 3 l (Jéroboam’) e 6 l (Mathusalem), utilizando a nomenclatura empregada pelos vinhos de Bordeaux, da Borgonha e de Champagne;
  • Chimay Grande Réserve aged in Wooden Cask – Com 10,5% de álcool essa Belgian Strong Dark Ale sofre 3 fermentações (no tanque, no barril onde é envelhecida e na garrafa). De sabor amadeirado e complexo, não é filtrada nem pasteurizada.

Chimay Trapista

3 – LA TRAPPE

Elaborada desde 1884 na fábrica conhecida como De Koningshoeven, localizada no Abadia Cisterciense de Nossa Senhora de Koningshoeven, a La Trappe possui uma ampla linha de Cervejas, incluindo as únicas brejas Trapistas de Trigo (Wit Beer), Bock e Quadrupel do mundo.

Curiosamente, entre 1969 e 1980, a ordem licenciou a produção de suas cervejas para a Artois Brewery, que hoje faz parte da gigante AB Inbev.

Após o fim do negócio, a produção voltou às mãos dos monges, que foram introduzindo novos produtos. Chegaram a Dubbel e Trippel em 1987, e a Blond em 1992. A partir de 1999, devido ao envelhecimento dos monges, a cervejaria tornou-se parte de um grande grupo cervejeiro chamado Bavaria.

Mas a La Trappe continuava a ser feito dentro dos muros da abadia.

Começou então uma grande disputa com a International Trappist Association (IPA) pelo direito de usar o nome Trapista.

Após ser obrigada a retirar o logotipo Trapista do rótulo em 1999 (ainda que espertamente continuasse a designar a cerveja como Trappistenbier), as partes finalmente se sentaram e chegaram a um acordo em 2005 (que, imagino deve ter sido comemorado com uma La Trappe!!!).

A La Trappe poderia então voltar a usar o rótulo Trapista e, em contrapartida, os monges voltariam a assumir tarefas mais ativas na fabricação da cerveja.

Como disse, são muitos os rótulos da La Trappe. Achei mais interessante apresentá-los sob a forma de uma tabela, contendo suas características mais importantes obtidas no site da cervejaria:

La Trappe - tabela

As diversas Ales produzidas pela La Trappe

As diversas Ales produzidas pela La Trappe

É isso aí pessoal. Prometendo não demorar muito, traremos mais 5 marcas no próximo post: a francesa Mont des Cats, e as belgas Orval e Rochefort, a norte-americana Spencre e a austríaca  Stift Engelszell; a italiana Tre Fontane.  Até a próxima!

Sobre o autor

Engenheiro que virou professor. Antes de descobrir o Maranhão, foi mineiro, baiano, sergipano e paulista. Cozinheiro de fim de semana, adora viajar, comer e beber, não necessariamente nesta ordem. De buxada a foie gras, de cuxá a caviar adota a máxima: se tem cara boa, coma!

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