Cerveja trapista – Parte 3: Mont Des Cats, Orval, Rochefort e mais!

Continuando a falar do “fascínio da cerveja trapista, a cerveja quase celestial”, neste post vamos comentar as marcas: Mont Des Cats,  Orval, Rochefort, Spencer, Stift Engelszell e Tre Fontane.

Apresentamos mais cinco marcas, que em comum, têm só a característica de pertencerem a esse seleto grupo que responde pelo nome de Cervejarias Trapistas.

Enquanto a Orval e a Rochefort são belgas, tradicionais e conhecidas, as demais, são de quatro outros diferentes países e só recentemente passaram a usar a denominação de cerveja Trapista.

Por ter decidido manter a ordem alfabética como critério para apresentação das marcas, continuaremos a numeração a partir do post anterior (parte 2), em que falamos um pouco sobre a Achel, a Chimay e a La Trappe.

Se voltar um pouquinho, vai entender tudo no primeiro post da série.

4 – MONT DES CATS

Cerveja trapista fabricada na Abbaye de Sainte-Marie-du-Mont, mosteiro trapista localizado no norte da França, bem pertinho da Bélgica, a Mont Des Cats tem uma história pra lá de interessante.

Trapista mont-de-cats

Apesar de fabricarem bons queijos há muito tempo, fazer cerveja não é algo novo para este mosteiro.

Começaram em 1848, quando construíram sua primeira cervejaria, e passaram a fabricar cerveja para consumo dos monges, que se dedicavam a uma árdua jornada diária de trabalho na agricultura. Como:

Monge + cerveja = coisa boa

esta fórmula de sucesso, fez com que a comercialização fosse inevitável, e em 1896, após modernizarem a fábrica, começaram a produzir suas primeiras Blonds.

Mas o que parecia não ter como dar errado, deu!!!

Em 1905, a produção foi interrompida devido às rusgas entre a Igreja e o Estado que impôs restrições à permanência de monges estrangeiros – que eram muitos em Mont Des Cats, na abadia.

Para piorar o que já estava ruim, em 1918, devido aos bombardeios da Primeira Guerra Mundial, a cervejaria – que nunca mais foi reconstruída, e o mosteiro, foram completamente destruídos.

Demorou 163 anos para essa história recomeçar. Com uma mãozinha do Mosteiro Scourmont Lez Chimay, que faz a conhecida Chimay, a Mont Des Cats “relançou” em 2011 seu único produto: uma Belgian Strong Pale Ale, com 7,6% de álcool que é comercializada em embalagens de 330 e 750 ml.

Há mais um fato interessante e curioso sobre essa cervejaria. Apesar de usar o nome “Cerveja Trapista” no rótulo e de ser membro da ITA (Associação Trapista Internacional), a Mont Des Cats não carrega na embalagem o conhecido hexágono de “Authentic Trappist Product”, por sua cerveja ser feita em outro mosteiro.

5 – ORVAL

Localizada na Abbaye Notre-Dame d’Orval na região Belga de Gaume, a Cervejaria Orval foi criada em 1931 para financiar as obras de reconstrução do mosteiro. Apesar da primeira cerveja só ter sido comercializada em 1932, os primeiros registros de produção e consumo de “louras” no mosteiro datam de 163

trapista Orval

Sua garrafa diferente (cujo formato se assemelha ao da água francesa Perrier) e o design do seu rótulo (que tem uma truta e um anel de ouro) são os mesmos desde a sua criação. Mudar para que, não?

Assim como a Mont Des Cats, a Orval produz somente uma cerveja: Belgian Pale Ale, com 6.2% de álcool, de sabor complexo e que deve ser consumida entre 12 e 14 0C.

O sabor amargo vem da primeira adição de lúpulo.

Empregando uma técnica inglesa conhecida como “dry hopping”, uma segunda adição de lúpulo, entre a primeira e a segunda fermentação, é feita.

Como não é cozido, esse lúpulo não modifica o amargor da cerveja mas ressalta e potencializa seu aroma.

Uma característica da(s) Cerveja(s) Trapista(s) é a produção limitada – condição importante para manutenção da qualidade do produto.

São, por assim dizer, “quase artesanais”, quando comparadas às demais cervejas de grandes produtores.

A Orval produziu em 2015, 73 mil hectolitros de cerveja (algo como 7,3 milhões de litros), sendo que somente 15% desse total foi destinado à exportação.

Parece muito?

Só a fábrica da Ambev aqui em São Luís, que não é a maior deles, tem capacidade para produzir 3,7 milhões de hectolitros por ano, cerca de 50 vezes mais!!!!

Ou seja, não é exagerado uma cerveja desta custar muito mais que uma Skol, Brahma ou Antarctica.

6 – ROCHEFORT

Minha preferida entre as marcas Trapistas que já provei, esta cerveja é fabricada nas proximidades da cidade Belga de Rochefort, no interior da Abadia de Notre-Dame de Saint-Rémy, criado em 1230 e que produz cerveja desde 1595.

Essa longevidade cervejeira foi interrompida em 1794 pela Revolução Francesa e em 1918 pela Primeira Guerra Mundial. Mas, os obstinados monges nunca “entregavam os pontos”. Em 1887 construíram uma nova cervejaria, e em 1952, a  “modernizaram”.

Como já falamos aqui, como as vendas são somente para suportar financeiramente o mosteiro e as obras de caridade por ele mantidas, sua produção é pequena e limitada, alcançando cerca de 180 mil hectolitros/ano.

A Rochefort (pronuncia-se Roch’fôr) porduz três cervejas – todas escuras e em embalagens de 330 ml, que diferem basicamente no teor alcoólico:

  • Rochefort 6 – Com 7,5% em volume de álcool, cor entre o avermelhado e o marrom e sabor e aroma que lembram caramelo, esta cerveja é uma boa pedida para quem quer se iniciar na Rochefort;
  • Rochefort 8 – Originalmente chamada de “Spécial”, esta Belgian Dark Strong Ale possui 9,2% de álcool. Tem uma cor entre o amarelo e o marrom, aroma pronunciado e sabor que lembra chocolate, malte torrado e café. Minha preferida entre as três. Adjetivos para definí-la? Fantástica! Muito especial!
  • Rochefort 10 – Bem alcoólica (11,2%) e de médio amargor (27 IBU), possui cor bem escura e sabor complexo, em que podem ser sentido frutas como ameixa, groselha e passas. É uma cerveja para iniciados.

trapista-rochefort

trapistas-tampinhas

 

7 – SPENCER

Fabricada no Mosteiro de St. Joseph, localizado na cidade de Spencer, estado de Massachusetts, a americana Spencer foi a primeira cerveja a obter o selo “Authentic Trappist” fora da Europa, o que aconteceu em 2013, após longa negociação com a ITA.

Seu logotipo reproduz a torre da igreja do mosteiro e a caligrafia constante na pedra calcária do altar-mor, escrita por um monge no momento da sua fundação em 1950.

trapista-spencer

Pedra calcária do altar-mor do Mosteiro de St. Joseph

fonte: < http://spencerbrewery.com>

Os monges de St. Joseph perceberam que a fabricação de cerveja era “uma necessidade” (para o bem de nós bebedores!!!) para ajudar a suportar financeiramente as obras de caridade mantidas pelo mosteiro, até então financiadas somente com a venda de geléias e conservas..

Após dois anos visitando as Cervejarias Trapistas europeias, começando pela tradicional Westmalle e finalizando pela aclamada Westvleteren, chegaram a conclusão que iriam sim construir a primeira fábrica de Cerveja Trapista da América.

Depois de testarem várias formulações resolveram fazer uma cerveja “inspirada nas que os monges consumiam no jantar”, também conhecidas como “patersbier” (cerveja dos pais, na língua flamenga) e somente disponíveis nos mosteiros.

Surgiu assim a primeira cerveja  trapista não-Europeia – a  Spencer, uma Belgian Pale Ale, com 6,5% de álcool, que não é filtrada nem pasteurizada. De acordo com o site da empresa, possui “aroma frutado, final seco e leve amargor”.

Além da Spencer, a cervejaria produz também a Holliday Ale (9,0% de álcool); a Imperial Stout  (8,7% de álcool) com sabor de malte torrado e notas de chocolate, café e caramelo; a IPA (7,2% de álcool), que é uma “interpretação Trapista da Indian Pale Ale” e a Feierabendbier (4,7% de álcool), uma Pilsner que foge um pouco às características Trapista.

trapista-spencer

8 – STIFT ENGELSZELL

A Abadia de Engelszell localizada em Engelhartszell – Áustria, produz cerveja desde 2012, quando recebeu o selo Trapista da ITA. No entanto, sua história é bem mais antiga, remontando ao ano de 1293 quando foi fundada como um Mosteiro Cisterciense.

Após sua dissolução em 1786, passou um bocado de tempo até que, em 1925, o mosteiro fosse refundado por monges refugiados alemães que haviam sido expulsos do seu país.

Após pouco mais de uma década de relativo sossego, eis que em 1939, a Gestapo – temida polícia secreta do estado Nazista, confisca a propriedade e prende os monges. Só em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, é que eles retornaram ao mosteiro.

trapista-engelszell

Atualmente, a Stift Engelszell produz 3 cervejas, cujos nomes (Gregorius, Benno e Nivard) prestam homenagem a três monges que serviram como superior ou ábade ao longo da história do mosteiro.

  • Gregorius – Uma Tripel escura e forte, com 9,7% de álcool, que incorpora à sua formulação, mel e levedura Alsaciana usada na fabricação de vinhos. Seu nome homenageia Gregorius Eisvogel que foi abade do mosteiro por mais de 25 anos;
  • Benno – Homenagem ao abade Benno Stumpf, responsável pelo retorno dos monges ao mosteiro após o fim da Segunda Guerra, esta Dubbel possui cor avermelhada, notas de frutas e 6,9% de álcool;
  • Nivard – Com 5,5% de álcool, possui cor clara, aroma frutado e sabor característico da levedura belga empregada na sua fabricação.

9 – TRE FONTANE

Apesar de produzir cerveja Trapista somente a partir de 2015, o mosteiro de Tre Fontane na Itália é secular e possui uma história muito rica. São reconhecidos produtores de mel, azeite, chocolate e licor.

Produzem somente uma cerveja, a Tre Fontane, uma Tripel com 8,5% de álcool e aroma de eucalipto devido a uma plantação que existe por lá desde 1870, quando os monges passaram a usar a planta para combater um surto de malária na região.

Dada a sua produção limitada, essa cerveja trapista é vendida somente no mosteiro e em alguns poucos locais de Roma.

Tre Fontane Trapista

Até a próxima, quando finalizaremos essa viagem abordando cada uma das Cervejaria Trapistas, falando da Westmalle, Zundert e Westvleteren, que para muitos conhecedores, produz a melhor cerveja do mundo.

Sobre o autor

Engenheiro que virou professor. Antes de descobrir o Maranhão, foi mineiro, baiano, sergipano e paulista. Cozinheiro de fim de semana, adora viajar, comer e beber, não necessariamente nesta ordem. De buxada a foie gras, de cuxá a caviar adota a máxima: se tem cara boa, coma!

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