Porque nós amamos o Bloody Mary

O que um coquetel com nome estranho – Bloody Mary, de criação incerta e que mistura ingredientes tão inusitados como vodca, suco de tomate e pimenta, pode ter de tão especial?

Para seus inúmeros fãs (entre os quais humildemente me incluo) é um clássico, um dos drinques mais famosos da história. Afinal, estamos falando do Bloody Mary, ou se preferirem Maria Sangrenta (ou ainda, Maria, a Sanguinária), que arrebatou inúmeros apreciadores ao longo de quase 100 anos de história.

Fonte: Victoria Benstead-Hume

Fonte: Victoria Benstead-Hume

Um pouco de história e estórias!

Existem algumas teorias correntes sobre a criação do Bloody Mary.

A mais aceita diz que o barman americano Fernand “Pete” Petiot criou o drinque na década de 20 no Harry’s New York Bar.

Faço aqui um pequeno apêndice sobre esse bar, que ainda hoje funciona na região central de Paris e possui uma história rica e curiosa. Um local que deve ser visitado pelos amantes do Bloody Mary.

O Harry´s foi aberto em 26 de novembro de 1911 por um ex-joquei americano, que convenceu um amigo que possuía um bar em Nova York a desmontá-lo e transferi-lo para Rue Daunou, onde está até hoje.

A novidade de uma bar com estilo americano, vendendo bebidas americanas, bem no coração de Paris, fez com que o Harry´s se tornasse um destino procurado, acolhendo a todos.

Ainda que Petiot já tivesse sido apresentado ao suco de tomate – usado naquela época para mascarar o gosto das bebidas alcoólicas, e com isso, enganar as autoridades durante a Lei Seca americana, o Bloody Mary precisou da ajuda da história para nascer.

Em 1920, muitos imigrantes fugindo da Revolução Russa e da chegada dos Bolcheviques ao poder, começaram a chegar a Paris, trazendo caviar e vodca, que naquela época não era uma bebida muito comum fora dos países do leste europeu.

A mistura da vodca dos russos ao suco de tomate dos americanos deu origem a um coquetel que Petiot chamou de Bloody Mary, pretensamente em homenagem a uma casa noturna de Chicago chamada de Balde de Sangue (Bucked of Blood)!

O tempo passou e em 1933, com o fim da Lei Seca americana, Petiot retornou aos Estados Unidos e foi trabalhar no King Cole Bar do Hotel St. Regis de Nova Iorque (mais um ícone para os amantes do Bloody Mary).

Lá, atendendo ao pedido de clientes que queriam um drinque com mais sabor, adicionou pimenta e molho inglês (do tipo Worcestershire ou Worcester) à receita que tinha criado na França anos antes.

No entanto, achando que Bloody Mary era um nome muito vulgar para o nível da clientela que frequentava o King Cole Bar (gente do nível de Ernest Hemingway), o proprietário mudou o nome para Red Snapper (alguns, porém, acreditam em rumores que a mudança do nome foi devido a troca da vodca – mais difícil de ser obtida à época, pelo gim).

Outra versão também aceita credita criação do drinque a George Jessel, que além de comediante e ator era garoto propaganda da Vodka Smirnoff.

Numa entrevista dada à revista New Yorker em 1955, ele afirmou que inventou o Bloody Mary em 1927 ao misturar suco de tomate (“para o corpo”) com a vodka Smirnoff (“para o espíito”), para curar uma ressaca da noite anterior.

Por outro lado, Petiot afirmava que Jessel apenas juntou vodca e suco de tomate, mas quem adicionou os demais ingredientes, dando corpo e equilíbrio ao drinque, foi ele.

Com a popularização do coquetel na década de 30, vários outros bares começaram a serví-lo.

Se a polêmica sobre o criador de nossa querida Maria Sangrenta nunca teve fim, a origem do nome Bloody Mary também reúne estórias curiosas e engraçadas. Vamos a algumas das mais conhecidas:

  • Jessel afirmava que o nome devia-se a uma amiga chamada Mary que certa feita derramou o coquetel sobre sua roupa branca;
  • Como o drinque se popularizou em Holywood, o nome seria uma homenagem a atriz americana Mary Pickford;
  • O nome seria uma alusão a Mary Tudor, rainha da Inglaterra, responsável pela execução de protestantes e que era conhecida pelos seus adversários como Bloody Mary ou Maria, a sanguinária.

Uma bebida para curar ressaca?

Fonte: Evan Blaser

Fonte: Evan Blaser

Desde que se popularizou na década de 30, o Bloody Mary é reconhecido como uma bebida capaz de curar ressacas, ou o que os americanos chamam de “Hair of the Dog Drink”.

Ainda que tal afirmação careça de sustentação científica., os defensores dessa teoria acreditavam que a combinação da forte base vegetal (suco de tomate, aipo, pimenta e molho inglês) ajudaria o estômago dos bebedores, enquanto  o sal reporia os eletrólitos perdidos e o álcool aliviaria as dores de cabeça.

Se para uns isso possa parecer exagerado, o que dizer do escritor John Steinbeck, que foi ainda mais longe ao descrever os poderes terapêuticos do Bloody Mary:

É um Elixir, algo muito perto de uma transfusão.

Polêmicas à parte, graças a esse controverso efeito terapêutico, o Bloody Mary se popularizou como uma bebida frequentemente consumida no início da manhã, como no brunch.

Como amante me arrisco dizer, se o Bloody Mary não tem o poder de curar os desconfortos causados pelos excessos do álcool, com certeza revigora a alma!

Um drinque complexo e equilibrado

Fonte: Graham Hills

Fonte: Graham Hills

Misturar ingredientes diferentes e intensos para obter um resultado equilibrado fez do Bloody Mary uma bebida com características singulares.

O fato de reunir a doçura do suco de tomate e do molho inglês, a acidez do limão, o salgado do sal, a pungência e picância da pimenta, sem causar amargor e respeitando a neutralidade da vodka, torna-o de difícil equilíbrio e elaboração.

Para alguns especialistas, trata-se do drinque mais complexo do mundo!

Para finalizar…

Gostaria de compartilhar com os amigos leitores as orientações para se fazer um bom Bloody Mary, dadas em 1947 por um dos grandes escritores (e bebedores!) da história – Ernest Hemingway:

Para fazer uma jarra de Bloody Mary (qualquer quantidade menor é perda de tempo) pegue um bloco de gelo e quebre-o como um bom arremessador faria (o pedaço grande evita que o gelo derreta rápido e dilua a bebida).

 Misture um litro de boa vodca russa e uma quantidade igual de suco de tomate fresco. Adicionar uma colher de sopa cheia de molho WorchesterLea e Perrins é habitual, mas pode usar A1 ou qualquer bom molho a base de  carne de bovino.

Mexerr. (Com dois erres).  Em seguida, adicione uma coqueteleira de suco de limão fresco. Mexer. Em seguida, adicione uma pequenas quantidades de sal de aipo, pimenta caiena e pimenta preta.

Continue agitando. Prove para ver como está o sabor. Se estiver forte ponha mais suco de tomate

Se ele não tem autoridade adicione mais vodca.

Com todo o respeito ao autor de O Velho e o Mar, minha amiga Fernanda S. de Rosa, que faz um Bloody Mary honesto, saboroso e equilibrado, não abre mão de usar vodca Absolut, pimenta Tabasco, molho Lea e Perrins e suco de tomate La Pastina.

Links para saber mais:

The Bloody History of the Bloody Mary

Oxford Dictionary of Food and Drink.

The King Cole Bar

The Secret Origins of the Bloody Mary

Sobre o autor

Engenheiro que virou professor. Antes de descobrir o Maranhão, foi mineiro, baiano, sergipano e paulista. Cozinheiro de fim de semana, adora viajar, comer e beber, não necessariamente nesta ordem. De buxada a foie gras, de cuxá a caviar adota a máxima: se tem cara boa, coma!

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